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Unidades 3, 4, 5 - Estudo de caso

Page history last edited by Roseli Hoffmeister 2 years, 10 months ago

 

 

 

           Para esta etapa do Dossiê, farei acompanhamento do caso de Jéferson, que já descrevi em minhas experiências, pois vejo que este é um caso que necessita um olhar mais atento.

           Jéferson tem oito anos e cinco meses, mora com seus pais e um de seus dois irmãos. Seu pai recebe benefício, pois teve um derrame cerebral e ficou com sequelas, já a mãe não trabalha para cuidar do marido, no entanto a família vive deste mísero salário, com o qual pagam aluguel, luz, água, alimentação, remédios, roupas e ainda um empréstimo que é descontado em folha. A família faz verdadeiros milagres para sobreviver com apenas este salário mínimo. O irmão parece-me que trabalha em atelier de calçados, este deveria ter cumprido pena com serviços voluntários, no ano passado em nossa escola, mas não concluiu a mesma, bem como não fora sua primeira desistência.Por diversas vezes a mãe de Jéferson, vem a escola pedir-me auxílio financeiro por não terem o que comer em casa. 

          Em 2007, Jéferson tinha sérios problemas de convivência, pois não sabia brincar com os colegas da turma, como também os brinquedos tinham de estar sempre ao seu dispor.

               Quando os fatos não se sucediam conforme sua vontade, Jéferson brigava, agredia, dizia que mataria todos. No recreio, diariamente estava envolvido em confusões.

                 Muito se conversava com Jéferson, mas não nos dava ouvidos, sua ira era tanta e só falava em matar, chegava a ponto de tapar os ouvidos para não nos escutar. Assim fora por um mês e meio, quando finalmente a mãe deu-se por vencida e contou-nos o que havia em torno de Jéferson, os porquês de sua ira, suas resistências, seus bloqueios,...

                Nesta oportunidade a mãe contou que um dos irmãos de Jéferson, aos quinze anos, teve participação na morte da tia, o que ela falava com a maior naturalidade. Buscamos neste dialogo conscientizar a mãe da necessidade de Jéferson ter um acompanhamento psicológico, pois já não tínhamos meios de resgatar e ajudar esta criança.

                 Nesta conversa tivemos sucesso, pois a mãe comprometeu-se em tentar ajudar esta criança. Na mesma tarde, fiz um parecer descritivo para que a mãe levasse ao clínico geral no posto de saúde do bairro para solicitar o encaminhamento ao atendimento psicológico, o que foi agendado no dia seguinte e na semana seguinte Jéferson passou a ter atendimento no CAPS. Durante o decorrer do ano letivo Jéferson melhorou muito, mas também tinha extremas dificuldades de aprendizagem.

               Em 2008, Jéferson frequentava o segundo ano, quando sofreu um acidente, fora atropelado. Neste período o menino ficou muito traumatizado, conforme sua mãe nos contava ele acordava gritando a noite, dizia que estava caindo. Por um longo período  Jéferson não dormia bem.

           Jéferson que já era complexado, enfrentou dificuldades ainda maiores, pois quebrou a perna. Teve faltas em excesso por que não caminhava,  tinha medo de apoiar a perna. Até que conseguiu uma cadeira de rodas emprestada para vir à escola.

               Na escola os colegas tinham o máximo de cuidado com Jeferson , zelavam por ele, assim como eu e a professora,  o incentivávamos a caminhar, no entanto sem sucesso. Desta forma o aluno faltava muito. Novamente o aluno precisou vencer seus bloqueios e superar seus medos.

            Em sala de aula , não realizava as atividades, pois pelo tempo que passou afastado da sala de aula, não construíra hipóteses para leitura e escrita, apenas reconhecia algumas letras do alfabeto, associando-nas aos nomes de colegas do ano de 2007. Por exemplo: T de Tobias, G de Gabriel ou relacionava as letras com o alfabeto ilustrado da sala, E de elefante.

            Como fui sua professora no primeiro ano, em 2007, previa que teria dificuldades na aprendizagem, pois dificilmente compreendia as atividades, onde muitas vezes tinha de realizar um trabalho diferenciado para que conseguisse realizá-lo.

            O aluno Jéferson reprovou no segundo ano. Por um número excessivo de faltas, bem como  tinha grandes dificuldades de aprendizagem. Neste ano, o aluno tem a mesma professora, que está muito preocupada com as dificuldades apresentadas pelo aluno.

            Jéferson é um menino, que ao contrário de como iniciou em nossa escola, está muito querido, é carinhoso, amigo e expressa seus sentimentos de forma bem espontânea. É esforçado, tem boa vontade e desejo de aprender, mas apresenta extremas dificuldades de aprendizagem.

            Realizando algumas avaliações com Jéferson pude constatar que está no estádio de desenvolvimento pré-operatório. Durante a realização da prova oscilava muito, estava muito ansioso, sua vontade era de manipular as bolinhas de massa de modelar e entender como eu fazia as transformações da mesma em salsicha, bolacha e bolinhas menores

          Suas respostas eram espontâneas e imediatas respondendo imediatamente ao desafio, não necessitando raciocinar em algumas questões. Noutras tinha dúvidas emedia o tamanho das bolas para verificar se haviam diferenças. 

            Estando no estádio pré-operacional, o aluno não tem noção de conservação, que é o critério psicológico da presença de operações reversíveis.

            O aluno é restrito ao aspecto figurativo, não é capaz de conceber a transformação, limitando-se a forma externa do estado inicial e final desta transformação. Não opera mentalmente a reversibilidade. Nesta fase pré-operatória pensa que há mais em um do que em outro.

             Na ausência da reversibilidade não há conservação da quantidade, por exemplo, quando transformei uma bolinha em uma bolacha, esta lhe representava ser maior, justificando que o tamanho da circunferência diferenciava uma bola de massa da outra. Jéferson não foi  capaz de perceber que apesar das variações da forma, o volume continuava o mesmo, não sendo retirada, nem adicionada massa durante o teste.

            O aluno procura o equilíbrio entre os processos de assimilação e acomodação, há dúvidas, assim suas assimilações lhe trazem  insegurança, sem uma acomodação completa, o que significa que os erros próprios do raciocínio  cabem nesta fase, pré-operatória, bem como da interpretação que faz do material analisado.

            Segundo a Teoria Piagetiana, quando a criança não tem noção de conservação, isto é, quando ela não acredita que pode haver diferentes configurações para um mesmo objeto, ela está no período pré-operatório, pois este período se caracteriza pelo egocentrismo, centralismo e irreversibilidade, ou seja, sente necessidade de justificar seu raciocínio, além de sentir dificuldade de sair do seu ponto de vista pra assumir o do outro, ou ainda, ter sua atenção voltada somente ao aspecto ou configuração do objeto, não vendo a possibilidade de transformá-lo.

 

 

          O aluno tem vocabulário adequado, descreve suas próprias vivências com linguagem clara, no entanto muito ansioso fala sem parar. Então para compreender seu processo de alfabetização verifiquei suas hipóteses de escrita e leitura, baseada nas descobertas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, que vieram mudar o ângulo de como o aluno aprende a língua escrita, enfocando-a como sistema de representação da língua falada, com significado social e fundamentando metodologias que se propõe a favorecer a construção do conhecimento.

          A constatação da construção da escrita e da leitura  efetivou-se a partir do ditado diagnóstico. Neste, claramente, percebo o aluno no nível pré-silábico, não faz associações da escrita à leitura, pois não estabelece vínculos entre a fala e a escrita.

          Jéferson sentia-se seguro ao escrever as palavras, usou muitas letras para a escrita das palavras.

 

 

          Na escrita diagnóstica acima o aluno construiu a hipótese pré-silábica, uma construção com uso de letras, não reflexiva, em que não há noção fonológica, pois não caracteriza valor sonoro a cada letra que compõe a escrita. Tanto que quando ditei a palavra LÁPIS, o aluno copiou a palavra DOMINÓ, vista numa caixinha da biblioteca, então ele disse "Copiei a palavra do joguinho.", questionei-lhe "Desta forma estarás escrevendo lápis?", respondeu negativamente mas não mudou sua escrita.

          Dessa forma percebo que Jéferson não representa a escrita com base na representação da fala, não atribui valor sonoro às letras, tanto que ao fazer a leitura aponta poucas letras para representar a palavra. O aluno não estabelece associações, vive um período de imaturidade com relação às hipóteses de construção da escrita e da leitura.

          Jéferson reconhece letras, diferencia-nas de números, mas não lhes atribui valor sonoro. No reconhecimento das palavras BOI, FORMIGA e ELEFANTE, sabia "ler" elefante pois visualiza a palavra na sala de aula, então lhe perguntei onde estava escrito formiga e disse corretamente qual a palavra, no entanto em sua justificativa disse que era fácil porque a outra palavra é bola e que formiga não começa com o b de bola. Perguntei ainda onde estava escrito boi, onde ele manteve-se firme e disse que estava escrito bola. Na verdade não leu nenhuma palavra, acertou coincidentemente por fazer suas eliminações.

 

          Com relação ao raciocínio lógico-matemático o aluno desenvolveu noção de quantidade e construção até o número cinco, não consegue quantificar, nem reconhecer quantidades maiores. A resolução dos cálculos fez contando nos dedos, mas não sabia onde escrever o resultado.

          Observando o aluno na Educação Física, percebi que tem grandes dificuldades motoras, como também não compreende a ordem dada para a atividade, necessitando que a professora realizasse a mesma com ele.

 

  

          

Comments (3)

Maria del Carmen Cabrera Martins said

at 11:57 pm on May 6, 2009

Roslei, relatas que o irmão do teu aluno, esta envolvido na morte da tia, mas como afectou isto o teu aluno?, ele viu alguma coisa? oú ouve essa historia?, ou tem mais alguma coisa?.Aguardamos a continuação
Abraços
Maria del Carmen

Roseli Hoffmeister said

at 10:49 pm on May 13, 2009

Oi professora!
Isto foi um fato que a mãe não esclareceu, mas acreddito que o irmão vendo o desespero da mãe, o irmão ser levado pela polícia, sejam fatos que chocaram-no. Lembro de um dia, naquele ano em que representantes da Brigada Militar, responsáveis pelo PROERD, vieram à escola e ele ficou muito agitado, querendo saber por que a polícia estava na escola.
Roseli

Maria del Carmen Cabrera Martins said

at 9:50 pm on Jun 3, 2009

Olá, Roseli, muito bom o teu relato, é bom saber que o Jefferson esta melhorando, se atitudes. Poderias nos contar que estratégias a professora dele usa para ajuda-lo no problema da leitura e escrita?. Parabéns!!!!, estas indo muito bem!!!
Abraços
Maria del Carmen

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